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Nem sempre se come "bem" numa viagem

Nem sempre se come “bem” numa viagem. Nunca duvidei disso. Liguei para a defensora do Núcleo Regional da cidade onde pretendia me hospedar. 
- Julia, podes, por favor, indicar-me um restaurante daí de perto? Estarei de passagem e uma comida boa sempre alivia o peso do deslocamento. 
- Posso indicar sim, Jean, mas tenho uma outra proposta. Por que não almoças conosco, aqui mesmo no Núcleo? Confraternizamos e você experimenta o melhor tempero da cidade. 
Não pensei duas vezes. A melhor comida é sempre a que é feita com afeto. 
No dia da viagem, lembrei à minha anfitriã, por mensagem, que, além de mim, dois famintos me acompanhavam. Solicitei que D. Firmina fosse generosa quando colocasse água no feijão. Um emoji sorridente aquiesceu com o pedido.
A incidência perpendicular do sol não deixava dúvidas: já passava das doze. Avistei a placa indicando que a cidade se punha a 5km. Quase senti o cheiro da comida...
O Sr. Oliveira, que não costuma ser dado a muita conversa, parecia ainda mais disposto a ficar quieto naquele dia, concentrado que estava no volante. Perguntei-lhe onde ficava o hotel da cidade. Ele disse que ficava ao centro. Quando não estou dirigindo, a estrada é, para mim, um convite à reflexão. Aproveito também para sonhar. Tá aí uma coisa que me agrada. Não sei aonde o sonho me levou, mas a barriga já não permitia fosse muito longe. 
Percebi que os 5km já haviam sido superados. Mas ainda era cedo e as placas nem sempre são leais nas informações que expressam. Pensei, logo chegaremos ao destino. O passageiro, porém, fez sinal para que o Sr. Oliveira parasse o veículo à beira da estrada. Entranhei o fato. 
- Doutor, estamos perto da comunidade, melhor almoçarmos logo. 
Foi quando me dei conta de que havia falado do hotel, mas não do almoço.
- Já passamos pela cidade? 
- Ela ficou 30km atrás, doutor. 
A imagem da comida preparada com carinho entristeceu-me. O emoji não me saía da cabeça. A internet local facilitou o pedido de desculpas.
- Julia, não se preocupe. Na volta, encostaremos aí e daremos a essa comida o destino que ela merece. 
O jeito era me contentar com o restaurante do Sr. Ceará. Era daquele tipo pouco convidativo. Ali, o dono aguardava na porta qualquer desavisado que se aproximasse. Logo nos apresentou o cardápio, já posto no buffet. Pedi dois ovos fritos. Dificilmente se erra neste tipo de prato. 
Ele viu na encomenda uma oportunidade para amizade e se sentiu à vontade o suficiente para sentar entre nós. Danou-se a falar. Avisou que vinha de outro estado, como se o sotaque já não o tivesse denunciado. Estava ali pelo esporte. Os meus olhos, contra a minha vontade, analisaram-no de cima a baixo. Ele não fazia o tipo atleta. Arrisquei:
- Qual o seu esporte, Seu Ceará?
- A caça, doutor. Mas não estou fazendo mais. Fui proibido?
- Por quem? 
- Meio ambiente. Fui denunciado. Ainda me levaram uma arma de estimação. Muito triste. Fiquei oito meses preso.
- Então não foi “só” por isso?
- O que o senhor faz mesmo, doutor?
Foi aí que me dei conta de que nem havia me apresentado. Disse que era defensor. Ele não pareceu entender bem o que isso significava, mas de algum modo se sentiu à vontade para prosseguir.
Narrou um fato criminoso, ainda mais grave, no qual ele foi apontado como autor. Injustamente! Dizia ele. Aduziu que tudo foi legítima defesa e consumiu alguns minutos me explicando, tecnicamente, como ela se verifica e sobre outras excludentes mais. Por fim, externou seu desagrado:
- Doutor, o senhor acredita: os direitos humanos nunca fizeram nada por mim! Se fosse um bandido, eles teriam ido lá socorrê-lo. Mas como era eu, um cidadão de bem, não nunca me acudiram. 
Não sei se pelos anos de experiência ou se pelo prazer que a boa comida daquele homem me proporcionou não tive coragem de contestar. Talvez a própria história narrada tivesse me inspirado prudência. Já pelo segundo prato, falei do cuidado que ele precisaria ter daqui para frente e expliquei o que significavam os papéis que ele estava assinando para não ser preso. Expus o risco de eventual prisão futura e deixei nele a esperança de que a nova vida não o conduziria mais a qualquer encrenca.
Ele formulou algumas perguntas que esclareci como pude. Levantei-me para pagar. Ainda pude ouvir o homem perguntar aos meus dois companheiros de viagem se eu era juiz ou delegado. Porque satisfeito com a resposta, ele veio me pedir que anotasse meu número num pedaço de papel logo desembrulhado de seu bolso. Em seguida, perguntou:
- Com o que mesmo o doutor trabalha?
- Sou titular do Núcleo de Direitos Humanos. Disse quase triunfante.
Um misto de surpresa e vergonha se esboçou. Intervim imediatamente. Não se preocupe. Muito obrigado pelo almoço e pela conversa. 
Dalí saímos em direção à comunidade, 18km adiante, onde o Sr. Benedito e Dona Mundica nos aguardavam afetuosos. Realizados os cumprimentos que a pandemia permite, D. Mundica nos convidou à casa de farinha:
- Doutor, preparamos um almoço caprichado para vocês!
Um defensor público não pode recursar um almoço oferecido pela comunidade. É um ilícito. Mais que isso: uma traição! Acho que isso constou até do meu juramento de posse no cargo. A oferta do alimento é a expressão de que a confiança mútua está presente. Aceitá-la é demonstrar gratidão e humildade. Estabelecer uma conexão. Nunca tive problemas com isso. Gosto, inclusive. Não é todo dia que se pode comer sem a presença dos agrotóxicos. Mas estava já bastante cheio. Advogado habilidoso, pensei: não vou recusar, mas vou despistá-los. 
Após me certificar de que todos do local já haviam almoçado, sugeri que começássemos primeiro pelo trabalho e, só depois, enveredássemos pela comida. Ouvi os relatos. Gravei o atendimento. Digitalizei documentos. Quase duas horas depois, D. Mundica não se deixava enganar:
- Agora o doutor vai almoçar!
Sorri e me lembrei da roça. Era meu álibi.  
- D. Mundica, preciso primeiro ir à roça com o Seu Benedito. 
Assim me pus. Saquei fotos e fiz vídeos. Ao retornar, olhei para o senhor Oliveira e sentenciei:
- A conversa está boa, mas temos estrada pela frente. Vamos?
Dona Mundica, como magistrada experimentada na vida, percebeu a manobra. Os embargos eram protelatórios! A multa seria executada imediatamente. 
- Mas antes, doutor, o senhor vai comer um pouco! Vai também tomar um café para não fazer desfeita.
Sorri e tentei justificar como pude. Não estava com fome. Mas a comida se garantia pelo sabor. Chamou-me a atenção o arroz. Alvo como um algodão e de um sabor daqueles que a memória não deixa passar. O recente preço dele na cidade ajudou também na impressão positiva, acredito. O repasto foi concluído com um delicioso café, passado com coador de pano, como manda o figurino.
Despedi-me contente e algo mais pesado. Dirigindo-me ao carro, percebi, no caminho, que a pálida internet havia permitido a chegada de uma mensagem da Julia.
- Jean, não se esqueçam de passar aqui. D. Firmina lembrou que não se costuma comer “bem” em viagens. 
Sorri e fui procurar o emoji que expressasse meu sentimento. 
Setembro, em algum lugar das impecáveis estradas do Maranhão.
Jean Nunes

Sobre o Autor

Jean Nunes

Defensor Público estadual (aprovado em 1º lugar), mestre em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Maranhão (aprovado em 1º lugar), Professor Assistente da Universidade Estadual do Maranhão (aprovado em 1º lugar).